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Psytrance e sua história
Psytrance e sua história















Iniciação às raves psicodélicas urbanas, seus elementos sociais e ritualísticos.


Foi no estado de Goa, na índia, onde se pode afirmar que a cultua psy-trance nasceu. Goa era uma região cristã colonizada pelos portugueses. Diferente das outras regiões indianas, Goa possui uma maior tolerância e diversificação cultural.




Era um “ponto de encontro internacional”, pela sua cultura espiritualizada e não materialista; muitos adeptos aos ideais hippies, antropólogos, místicos e traficantes de drogas viajavam frequentemente para a região.




Faziam-se diversas festas que tocavam rock-psicodélico e reggae em grande maioria, até que entre os anos de 1987 e 1988, o DJ Laurent introduziu a música eletrônica nestas festividades, no início não foi muito bem aceito, mas em pouco tempo se tornou uma febre e causou uma reação em cadeira que revolucionou o cenário da música eletrônica internacional.




Pode-se perceber uma grande semelhança entre a queda do movimento hippie e a introdução da música eletrônica nas festividades de Goa. Isso ocorre devido a um processo de aculturação. Paralelamente ao fato de que os viajantes transformavam Goa, estilos de música eletrônica começavam a se desenvolver, como na Inglaterra e Alemanha.




Dentre os hippies que vieram da Califórnia para Goa, destaca-se o DJ Goa Gil. Gil resgata a musicalidade xamânica, os tambores repetitivos, e a une com a música eletrônica e conceitos de Yoga, tudo isso para “redefinir o antigo ritual tribal para o século XXI” (Goa Gil: Site). Se utilizando, numa cerimônia, a música, enteógenos e a dança. Nas próprias palavras de Goa Gil, “Dança é meditação ativa... Ao dançarmos nós vamos para além do pensamento, além da mente e além da nossa individualidade... Tornamo-nos UM no êxtase divino criado pela união com o espírito Cósmico... Esta é a essência da experiência do trance através da dança...”.




A semelhança entre a musicalidade dos rituais xamãs e a música eletrônica de Gil pode ser analisada por meio do eletro encefalograma (EEG). Pela proposta de Gil, o que pretende trabalhar é a região cerebral afetada pelo comprimento de ondas de 8 a 13 Hz (região occipital, córtex visual), ou seja, expandir a consciência, e concentrá-la no mundo interior (Gramacho, 2002). Surge aí o que pode ser chamado de “tecno-xamanismo”, ou seja, um xamanismo adaptado ao universo do trance com ferramentas tecnológicas.




O que se percebe nesta tribo é que ela é universal, a todo instante influências externas chegam, novas regiões do planeta são “infectadas” com o trance, e, deste modo, a cena não para de crescer. E é isso que torna o universo do psy-trance tão singular, além de ser um estilo de música muito atrativo, é também um estilo de vida, uma filosofia que sobrevive desde a época dos hippies.




O sujeito híbrido: a cena híbrida




Identidade: é sobre isso que iremos falar nesta etapa. Todos buscam saber o que somos enquanto indivíduos pertencentes a um determinado meio e tempo, a uma determinada cultura. A todo instante nos deparamos com contradições e diferentes identidades dentro de nós mesmos. Este é o sujeito atual, o que se comporta e age de forma diferente, de acordo com o local onde está.




É o sujeito híbrido, ou seja, aquele que é o fruto da fusão de diferentes tradições culturais, criando novas culturas, mais apropriadas ao seu meio.




A pós-modernidade é inerentemente globalizante. O sujeito dos dias de hoje está inserido num processo de globalização, onde distancia e tempo são diminuídos, aproximando culturas, misturando-as. Isso nos mostra que o espaço e o tempo também são coordenadas para representações (cinema, fotografia, desenho, escrita, etc.).




E é dentro destas representações que o sujeito se identifica e dialoga. Num mundo globalizado, estas representações se tornam híbridas e, desta maneira, a identidade cultural do indivíduo também.




Esse encurtamento de espaço que coloca a cultura global em embate com a cultura local é o processo da globalização. No universo das raves psicodélicas podemos perceber isso de forma bem clara.




Sua cultura local, baseada na questão da liberdade, difusão de filosofias e crenças entra em embate com a cultura global, ou seja, uma cultura comercial. Pode-se afirmar que houve hibridismo, surgiu uma nova cultura psicodélica, que é comercial, porém ainda manteve resquícios de sua origem.




O que entra em debate é o indivíduo neste meio das raves. A cena psicodélica carioca está extremamente vinculada com o lado filosófico, fraco, porém que luta para sobreviver, e em oposto, está vinculada também ao ambiente de produção cultural executiva, ou seja, aquela produção voltada para arrecadação de lucro.




Esta dualidade na cena a coloca em semelhança à comercialização de serviços que não deveriam ser comercializados, como atividades religiosas ou terapêuticas; estas duas últimas também tendo um vínculo com o mundo das raves, devido à herança indiana.




O que podemos perceber neste ponto, é que ainda existe a procura pelo universo alternativo, aquele que se adequar às necessidades do hibridismo que as identidades pessoais pedem. Em outras palavras, um contexto onde certos paradigmas estejam descartados e que a liberdade de expressão e atitude sejam abertas, mesmo que para isso seja necessário comercializar, ou pagando para viver esta nova cultura.




Por todo esse dilema envolvendo comércio e cultura de raiz, as pessoas que freqüentam as festas de psy-trance possuem uma gama de estereótipos. Existem aquelas que freqüentam por moda; outros por curtirem a psicodelia.




Há também aquele que vai às festas pela psicodelia, mas que não suporta o meio comercial, e ainda aqueles que deixam de ir devido à mudança provocada no universo das raves. São pessoas diferentes, convivendo num mesmo ambiente, se comportando de diferentes maneiras e pensando de diferentes formas. Um público com tantas identidades, num mesmo meio, um meio modificado devido às influências da globalização da cultura. Consequentemente, estas diferentes identidades assumem estereótipos, que vão desde a razão de freqüentarem as festas até a questão da indumentária.




Tal contraste gera conflitos, estereótipos contra estereótipos. E qual a razão disso tudo? O encontro com o “outro”: o diferente sempre será rotulado da maneira que um estereótipo consegue fazer, o que varia de acordo com quem é o “eu” desta pessoa no contexto das raves. É a rotulação do outro que causa as desavenças entre as diferentes tribos deste meio.




Por fim, percebemos que a cena atual representa um diálogo entre o comercial e o original; expressando o diálogo entre a cultura global e a local. Também existem as confluências das diferentes tribos deste universo. Havendo tantas confluências, tanto nos elementos deste meio, quanto nas tribos deste meio, pode-se perceber as raves como um universo híbrido e amplo, que, apesar da corrosão que passa, ainda se mantém em pé, com certa paz.




Desta maneira, seria possível dizer então que o universo das raves caminha junto com a cultura global, da mesma maneira que o movimento hippie caminhou com o capitalismo ao levar as indumentárias para butiques; o que nos leva a concluir que o universo psicodélico foi levado ao comercial justamente por ele. Sendo um universo que gera uma ameaça, foi enquadrado para não oferecer risco, ou seja, as raves foram vendidas para evitar outros conflitos.




A ritualidade e os fatores sociais das raves




Raves são festas que ocorrem em locais distantes de centros urbanos, com longa duração e tocando unicamente música eletrônica. No caso em particular, a vertente eletrônica é psicodélica, o Psy-Trance. Atualmente percebe-se um grande aumento de freqüentadores, havendo festas com cerca de trinta mil pessoas. Conseqüentemente, muitos destes freqüentadores se apropriam deste tipo de festa para poderem desfrutar da liberdade de consumo de drogas, ignorando a cultura por traz destas festas.






Com toda uma diversidade de público tais festas se tornam um fato social total, pois nelas se encontram muitas influências e fatores determinantes que abranjem todos os campos de atuação do indivíduo. Suas principais influências são religiosas, econômicas e políticas.




No campo religioso se percebe a influência de culturas esotéricas onde se determina o ambiente destas festas como uma espécie de ritual xamânico moderno.




Aderindo-se diversos elementos desta espécie de rito, como a música transcendental, a dança como meditação ativa e o uso de enteógenos para se alcançar diferentes estados de consciência.




O uso de enteógenos em particular é de certa maneira híbrido, mesmo havendo tolerância e aceitação para o uso destas substâncias, seu consumo exagerado deturpa todo o contexto destas festas, havendo desta maneira distinções entre estes consumidores e consequentemente atrito entre estes usuários. A religião se torna algo não institucionalizado, tendendo ao humanismo religioso onde todos são livres para pensar e fazer o que bem entenderem desde que não prejudique ao próximo.




Nos fatores econômicos o que se deduz é que para viver até certo ponto tal cultura há de se pagar para isso, tanto na entrada para as festas quanto para o consumo, seja qual for. Hoje em dia, os freqüentadores destas festas são majoritariamente membros da classe média, pois se necessita o expendido de valores altos para poder ir a uma festa.




Para ilustrar isso, eis uma média de preços: Entrada com média de R$50,00, excursão R$25,00, cerveja R$4,00, água R$3,00, hambúrguer R$8,00, etc. Sem contar o consumo ilícito, onde se comprar uma pílula de ecstasy por R$25,00 e um papel com LSD por R$30,00. Se for fazer a conta, um indivíduo, para ficar a vontade numa desta dessa gastaria por volta de R$288,00, sem contar o uso de drogas, caso opine.




Levando a freqüências que estas festas ocorrem, não seria possível para uma pessoa que receba até R$1500,00 freqüentar a todas as festas e ter um bom consumo de bebidas e comida.




A pesar do custo, o valor que a maior parte das pessoas gastam é inferior, pois preferem gastar R$25,00 num ecstasy que o manterá com energia por pelo menos quatro horas e consumindo cerca de quatro garrafas de água do que nestas quatro horas consumir diversas latas de energéticos. Isto da uma esclarecida sobre o quanto de dinheiro circula nestas festas, sendo uma grande fonte de renda, tanto para os produtores da festa quanto para os traficantes que a circundam.




Tomando o tema das raves para o lado político, o que se vê é uma grande briga entre os freqüentadores destas festas e a sociedade. Esta briga não é largamente explanada, o que é mostrado pela mídia é um ataque às festas propriamente ditas, fato previsível, pois os próprios freqüentadores compõem a elite da sociedade.




Este embate ocorre devido ao uso exagerado das drogas que foi completamente explanado após a popularização destas festas. Neste ponto, os ideais da cultura psicodélica são completamente esquecidos, sendo jogados para o campo utópico. Todo esse ressentimento devido aos atritos com a sociedade é mostrado no “Manifesto Raver”, um manifesto de autoria anônima que está presente em todo o planeta, explanando os ideais e as considerações para com a sociedade. Toda esta briga ocorre de forma extremamente semelhante ao que ocorria com o movimento hippie, sendo o mesmo pai do Psy herdando às raves sua característica política sócio-ambiental, além dos fatores culturais como o malabarismo, a pirofagia e a arte plástica, todas sendo representações marginalizadas.




As características citadas acima mostram porque as raves são um fato social total. Outra característica de fundamental importância para se entender estas festas são o elementos ritualísticos destas festas. As raves em sua essência compõem um ritual moderno com raízes xamânicas e hinduístas. Seu propósito original é a celebração da vida, a difusão do amor e a expansão da consciência para se melhor compreender a realidade e se alcançar um estado uno entre as pessoas, além dos ritos de passagem que ocorrem dentro destes ritos maiores e coletivos.




A celebração da vida se da pela preocupação com a natureza e também com a saúde. Apesar dos consumos excessivos de drogas, existe uma recriminação a esta atitude devido à questão da necessidade, pois o uso exagerado de certas substâncias pode ser prejudicial à saúde, por isso o indicado é usar menos, principalmente o êxtase, sua indicação de quantia suficiente é de uma pílula a cada seis horas no máximo.




Com exceção do uso de drogas, cigarros e bebidas existem muitos debates sobre saúde e meio ambiente. Encontrando-se muitos vegetarianos neste meio, assim como pessoas vinculadas a natureza, desde esportistas conscientes às ativistas ambientais.




Já questões de difusão de amor, estado uno entre as pessoas, expansão da consciência são características com dois pólos, o primeiro se da ao que é feito durante as festas e fora das festas que possa contribuir para estes pontos, exige-se atitudes politicamente corretas para realmente ser um “trancer”; outro pólo é o uso de drogas para se sentir o amor, a unidade e a expansão da mente.




Drogas como o ecstasy provocam uma sensação de amor mútuo com todos, já o LSD estimula os sentidos humanos mostrando ao usuário outra interpretação das imagens, sons e toques, assim como dos atos. Como se percebe, os rituais xamânicos foram alterados, principalmente quanto às drogas. Não se tendo acesso às substâncias utilizadas pelos índios, o que se faz é uma substituição destas substâncias por drogas sintéticas. O LSD é sintetizado de um fundo de centeio, o claviceps purpúrea, que é utilizado em ritos xamânicos da Índia.




O ecstasy apesar de não ser um sintetizado de alguma substância enteógena utilizada em ritos xamânicos possui as mesmas características que o khat possui, sendo este uma árvore africana que possui efeitos enteógenos utilizada a milhares de anos em cerimônias religiosas dos egípcios. O que nos mostra que o uso do ecstasy não está unicamente atrelado à diversão, mas também que devido aos seus efeitos serem também buscados dentro de uma espécie de rito (que muito provavelmente não ocorre só no Egito) ele se enquadra dentro de um rito devido aos seus efeitos.




Essa questão de drogas ritualísticas deve ser bastante analisada, o que se percebe dentro de uma rave é que as drogas majoritariamente utilizadas possuem, em algum contexto, um uso ritual. LSD na índia, efeitos do ecstasy semelhantes ao khat africano, o hashish nos ritos oferecidos à Shiva, a maconha usada por índios após a descoberta e associada à Jurema em algumas tribos, etc. O que nos leva a perceber que há elementos no consumo de drogas em religiões ancestrais modificados para se terem a mesma utilidade prática em tempos modernos.




Dentro deste ritual moderno, encontra-se um símbolo que une a todos, assim com em todos os outros rituais. No caso em particular, o símbolo é o “flyer”, que é uma espécie de panfleto para divulgação da festa. Este símbolo é de extrema importância em seu nível exegético, pois ele mostra o que a festa será, e o que se espera dela. Já em seu nível operacional ele serve para atrair o público, mostrar o conceito da festa, é também por meio dele que muitas pessoas avaliam as boas festas, de acordo com o horário e com o “line up”, assim como ser uma das principais formas de divulgação on-line ou off-line.




Em seu nível posicional ele não possui uma grande importância, ele estará com o freqüentador antes da festa, servindo como fonte de informação, durante a festa ele provavelmente não estará mais com o indivíduo, caso seja, será somente para poder se acompanhar o “line up”; e após a festa estará estocado dentro de uma gaveta ou na lixeira, irá perder toda a sua importância, servindo unicamente como lembrança.




Todo esse ritual começa a se formar algumas horas antes do evento. O momento de separação em que os membros farão com a sociedade começa na ida a festa. Esta separação ocorrer de forma física, se afastando da metrópole e se inserindo em cidades do interior, onde a natureza é mais abundante e também onde há menor fiscalização da polícia (apesar de que hoje em dias estas festas estejam sendo perseguidas) e de outras autoridades. Neste período, quando ocorrem por meio de excursões às pessoas se conhecem e já se preparam para a festa.




Existe certa resistência neste ponto, pois mesmo que estejam se deslocando da sociedade há o risco de serem parados pela polícia e terem suas drogas apreendidas, acabando com a festa de muitos. Mas todo esse momento de separação acaba quadno se chega à festa, pois neste momento o que ficou pra trás só será lembrado na volta.




O momento da chegada marca a liminariedade do ritual. Neste momento as regras da sociedade são esquecidas quase que totalmente, pois neste espaço as pessoas podem ser livres a pensar, agir e usar o que bem entender, é um zona autônoma temporária, ou seja, naquele espaço será formada uma região anárquica temporariamente formada pelos freqüentadores e dissipada quando a festa acabar. Será nesta região onde os princípios xamânicos poderão operar juntamente a um culto hedonista, onde diversão e transcendência se mesclam e se confundem.




Tornando a rave como um espaço esotérico e ao mesmo tempo de pura diversão. Este momento liminar e híbrido forma as communitas, as pessoas em comum se juntam formando seus grupos dentro do rito, entretanto, estes grupos se conectam num mesmo sentimento, denominado por eles como “vibe”. Pode ser que esta “vibe” ocorra devido aos efeitos das drogas, pois as mesmas causam a sensação de união e amor entre todos, mas de acordo com relatos, a questão da droga é elementar, porém existe um significado maior por traz: todos estão ali pela mesma coisa, para se divertir majoritariamente, e esse desejo mútuo faz com que todos cooperem para que o bom clima se mantenha.




Desta maneira havendo uma conexão entre a razão de todos estarem ali. Esse período liminar é fundamental, pois ele irá produzir sentimentos que as pessoas irão levar para fora do rito, irão se identificar como diferentes da sociedade como um todo e irão protestar. Para eles, ser um “trancer” é uma arte, existe um texto clássico denominado de “A arte de ser trancer” que possui suas bases em textos do livro “O manual do guerreiro da luz” de Paulo Coelho, evidenciando as características esotéricas deste meio, que vão para além da festa em si, chegam ao campo da identidade pessoal.




É neste momento liminar que os trancers exercem sua função de propagar o amor e criar uma atmosfera positiva para o mundo, em benefício da Terra. Outro texto clássico mostra isso, denominado “O chamado Mítico” que na verdade é um texto da mitologia Maia, onde Deus manda alguns seres de luz irem a Terra e propagarem o amor e a paz, como se percebe, o trancers se dão a missão de fazer isso, se autodenominando como enviados para levar a Terra à uma nova era de luz. Como podemos ver, o momento liminar que é a própria festa ocorrer tanto externo quanto no interior do indivíduo, havendo um deslocamento espacial e mental do indivíduo para com a sociedade.




Após o momento liminar, há a agregação com a sociedade. Normalmente neste momento as pessoas se sentem limpas, com certa paz interior. Apesar de estarem cansadas e quererem ir para casa para poderem descansar, caso a festa tenha sido boa, existe o desejo de ainda querer estar na festa, de querer ter energias para se manter ali.




Isso mostra que o indivíduo mantém uma relação de afeto com a festa, possivelmente ele teve bons sentimentos ali dentro e sente um desagrado à diferença que existe entre estas festas e a cidade, pois na cidade ele irá sofre repressão e acusação constantemente.




Em contrapartida, mesmo que ele esteja indo embora, ele sabe que retornará a outra rave. De acordo com depoimentos, normalmente depois que a pessoa vai uma vez à uma rave ela deseja retornar, pois estas festas possuem uma atmosfera que nenhuma outra possui. Não existem brigas e majoritariamente as mulheres não são assediadas.




O único pré-requisito para que uma pessoa se torne freqüentadora destas festas é que ela goste de música eletrônica e se disponha a viajar para poder ir a estas festas. Claro que existem festas dentro das cidades, porém estas não são raves, são simples festas que tocam Psy-Trance, e atualmente havendo espaço para o Electro e House.




Dentro deste momento liminar existe outra semelhança com ritos indígenas, no caso é o Potlach. O Potlach é um ritual agonista realizado por tribos da Nova - Zelândia, é quando uma tribo vai visitar a tribo da caça é consome exageradamente a caça. No caso das raves, o consumo conspícuo ocorrer com as drogas.




Muitos dos freqüentadores em busca de uma sensação única consomem grandes quantidades de LSD e ecstasy, com quantidades acima do indicado criando-se uma massa de pessoas extremamente drogadas e desta maneira descaracterizando a real razão do uso das drogas.




Neste caso, o Potlach ocorre devido ao momento em que a pessoa pode se drogar, ela irá aproveitar aquele momento o máximo possível, pois não irá ter tal liberdade dentro da cidade, visto que para o uso destas drogas exige-se certa ambientação, um local propício para o uso das mesmas. Apesar de ser um fato que corrói a imagem das raves e afasta certos freqüentadores, pode-se considerá-lo como parte delas, pois por se caracterizarem como uma t.a.z. (zona autônoma temporária) o indivíduo tem liberdade de executar tais ações, sendo as mesmas constituintes do rito como um todo.




Com toda essa estrutura social e ritualística das raves o que nos deparamos atualmente é um grande problema social, onde o significado do rito se perde sendo resgatado somente em algumas pequenas festas ou festivais. Tal problema torna o rito um drama social, onde os principais atores são os neófitos e os membros que estão ali por pura diversão e se esquecem da psicodelia. O drama social se divide em quatro partes, primeiro ocorre a ruptura, depois a crise, seguida pela reparação e concluindo-se numa conciliação ou separação permanente.




A ruptura deste caso em particular de drama social ocorre com a quebra de valores da sociedade. Membros da classe média do Brasil são freqüentadores destas festas, usuários de drogas e alguns também são traficantes de drogas.




Mesmo que o tráfico não esteja completamente associado às favelas, o fato de jovens ricos estarem traficando assusta a sociedade. Com o crescimento destas festas, fica cada vez mais clara a ocorrência destes fatos, que vão além de milhares de usuários numa festa, chega ao ponto das drogas invadirem a vida privada das famílias.




Conseqüentemente a mídia brasileira começa a se voltar para estas festas, mostrando uma crise social que não era percebida há pouco tempo, cada vez mais, jovens que não precisam do dinheiro do tráfico o produz não por necessidade, e sim por razões de simples desobediência ao sistema. É quase que uma cisma, por ser usuário ele quer facilidade para se ter a droga, semelhante ao usuário de maconha que a planta em sua casa, porém neste caso, a quantidade não é unitária, são armazenados centenas de pílulas.






O tráfico neste caso não esta nas favelas, estão nas coberturas e prédios da zona sul, assustando toda a cidade que passa a discriminar os freqüentadores destas festas e acusando as mesmas de serem incentivadoras do uso de drogas. Mas o que ocorre realmente é que o problema do tráfico, e também da violência, não esta mais nas favelas, ele agora está nos bairros nobres.




Devido a isso, a classe média entra em crise, problemas que ela não imaginava que fosse possuir esta dentro de suas casas. O problema chega ao ponto de um novo preconceito surgir, pessoas que freqüentam as festas são automaticamente acusadas de serem usuárias de drogas, alienadas e também acusadas de não terem bom gosto musical, de serem hedonistas e inconseqüentes.




Isso faz com que ocorram brigas entre os freqüentadores e os opositores. Formando assim mais um dilema na sociedade, o que se fazer? Além disso, o debate da legalização das drogas volta a tona com mais força, fazendo com que os cidadão entrem em outras debates polêmicos.




Medidas como proibição das festas são incentivadas, unicamente porque ainda não se sabe como solucionar o problema de forma eficiente. O que se tenta fazer é uma política de anti-raves, acreditando-se que estas políticas realmente vão solucionar o problema do alto consumo de drogas. È fato que este tipo de medida não será eficiente, pois irá levar as raves para a clandestinidade, havendo muito menos controle por parte das autoridades legais, sendo um solo fértil para o tráfico das drogas.




De acordo com os informantes, a solução para o problema é a compreensão da sociedade para com estas festas. Segundo eles, as pessoas devem ter consciência de que o uso das drogas não deve ser reprimido, deve unicamente ser controlado. Como se fosse uma redução de danos, ninguém conseguirá fazer com que outra pessoa pare de usar drogas unicamente porque discriminam as festas, a solução correta seria conscientizar as pessoas sobre o uso da droga e conscientizar a sociedade que a melhor solução para se evitar o tráfico, a violência e a baixa qualidade das drogas é a legalização das mesmas.




Nos dias atuais é impossível se prever o fim deste drama social, pode ocorrer a conciliação ou a separação definitiva. Para se ocorrer a conciliação a sociedade terá que diminuir sua discriminação para com o uso das drogas e possivelmente legalizar. Já a separação definitiva, que deve ocorrer mais facilmente, é a proibição destas festas fazendo com que as mesmas se escondam da sociedade se tornando uma zona sem poder legal, o “baile funk” do Psy-Trance.




Como se pode perceber, as raves possuem tanto fatores sociais positivos quanto negativos, e ambos se mesclam de alguma maneira com alguma espécie de ritual xamânico. Desta maneira, as raves são eventos com características únicas, um terreno híbrido em todos os seus aspectos. Uma festa ritualística e hedônica, onde diversão e transcendência se misturam e podem ser a mesma coisa.




O neófito a ser estudado.




Existem diversos tipos de neófitos dentro de uma rave, como já foi esclarecido acima. Esta pesquisa irá se dedicar a um tipo em particular. Este neófito possui tem idade entre 16 e 20 anos, nunca foi a uma rave anteriormente, apesar de já ter ido a alguma festa que tocasse majoritariamente música eletrônica, porém com duração máxima de oito horas (raves possuem mais de doze horas). Ele Também não possui conhecimentos técnicos, não sabendo fazer diferenciação entre as diferentes vertentes da música eletrônica, muito menos entre as sub-vertentes do Psy-Trance.




É leigo, tanto nos conhecimentos específicos da música, quanto na cultura e comportamento nas festas, sendo propício a se comportar como a maioria faz. Este neófito normalmente é o único no grupo, sendo levado às festas por pessoas que já são freqüentadores das raves, estes por sua vez servindo de tutores.




Apesar de novo, ele possui certa liberdade para sair e não esta preso às morais da sociedade, sendo completamente tolerante ao uso de drogas, e, na teoria, sendo simpatizante com pessoas de qualquer tribo. Antes de ir a sua primeira festa, ele já tem conhecimento dos símbolos das festas, mesmo não sabendo seus significados reais, assim como já conhece os DJs mais populares, principalmente Skazi, Infected Mushrrom e Astrix.




O neófito e sua iniciação.




A iniciação possui três etapas. A primeira é o convite para ir a rave, a segunda etapa se da nos preparativos e na ida, o momento da separação. Quando ele chega ao momento liminar, ou seja, quadno chega à festa, ele entra na terceira etapa da iniciação, que é quadno ele será introduzido no meio se deparando com um tipo de festividade que ele nunca presenciou. Nesta etapa ele irá se introduzir aos poucos nas regras de comportamento daquele meio, que mesmo que defenda a liberdade, possui regras para manter a paz e a liberdade ali dentro.




A etapa final é a agregação (a etapa final do ritual da rave), neste estágio ele irá absorver as informações recebidas e irá identificar naquele meio uma espécie de paixão, fazendo com que ele queria retornar e viver aquilo novamente.




Na primeira etapa que é a separação, o neófito terá por meio de seus tutores o incentivo para ir às festas.




Isso mostra que os freqüentadores das festas incentivam a todos a irem, como se aquele meio fosse aberto a todos. Variando de acordo com os tutores, o “chamado” será diferente. Se os tutores forem membros voltados para a cultura das festas, o chamado será mais vinculado a identidade cultural e às características mais elementares da festa, chamando a atenção para a paz e a liberdade de ação. Já se os tutores forem membros voltados para a diversão, este “chamado” irá ressaltar as pessoas da festa, como elas se relacionam e o bom sentimento que há nas festas.




Esta distinção do chamado ocorre devido à origem deste amor. Para as pessoas voltadas à cultura das raves, esse amor é fruto das drogas, não sendo muito valorizado, o contrário ocorreria se a festa resgatasse a cultura nativa das raves, neste ponto o ambiente e as pessoas seriam valorizados, pois a maior parte dos freqüentadores seria os “roots”, ou seja, as pessoas inseridas na cultura psicodélica.




Já os que estão ali puramente por diversão vinculam o amor também as drogas, mas ele não é de nenhuma maneira condenável, pois é graças a ela que o clima se mantém em paz, sem contar o prazer que a droga traz.




No momento liminar do rito, após o chamado, o neófito se depara com um evento de grande estrutura, que ocorre na parte do dia, da noite e da madrugada. Com milhares de pessoas que se abraçam e sorriem, mesmo que esta alegria seja fruto das drogas é inevitável à um neófito que ele se sinta bem e bem recebido ali.




É neste momento que ele começa a se inserir no meio, observando o comportamento, as conversas e se identificando com ambos. Nos assuntos tratados nas conversas, majoritariamente são relativos a outras festas, drogas, natureza e qualquer outro assunto que não tenha relação direta com as cidades, prova do momento liminar de distanciamento da sociedade urbana.




Segundo informantes, é comum que alguns tutores dêem a “primeira bala” (primeira pílula de ecstasy) do neófito, esta “primeira bala” ocorre na “primeira rave” e é de extrema importância para o entendimento da primeira rave. Como já foi escrito anteriormente, as raves se propõem a expandir a consciência para se compreender a realidade de outra maneira, além da festa em si representar um meio único, vivenciá-la com o auxílio de psicoativos seria um modo a compreender a essência de uma rave.




Muitos dos neófitos que usam a droga começam a falar da festa como se estivessem falando de um grande amor da vida deles, como se estivessem conectados com todos da festa e que o sentimento de amor prevalecesse. O que difere de um simples efeito da droga é que este sentimento fica enraizado no significado da rave, ou seja, ele pode passar a acreditar que aquele sentimento realmente exista, sendo alcançada por meio das drogas que servem para evidenciar isso.




Além do efeito da droga ser positivo, ele passa a acreditar também que todos estão ali pelo mesmo propósito, na mesma conexão, na mesma freqüência.




Neste ponto ele alcança os objetivos do ritual, como explanado anteriormente, que é alcançar o uno, o amor, a paz, a celebração da vida, a transcendência e a expansão da consciência. Ele alcança tudo isso na pista de dança. Vale salientar que isso não ocorre necessariamente com o uso de drogas, de acordo com relatos, muitos freqüentadores só foram usar as drogas meses depois (ou anos) e outros nunca chegaram a usar, estes dizem haver uma conexão entre todos por meio da música, que a transcendência ocorre com a música e com a dança, como proposto pelo ritual de Goa Gil.




Grande parte dos neófitos alcançam este estado de união por meio das drogas que conseguem por meio de seus tutores, poucos são os que alcançam sem as drogas. Os que não utilizam as drogas e não alcançam este estado gostam da festa, mas normalmente reclamam da duração e do cansaço. Fora esta questão das drogas, existe outro elemento constituinte do rito de iniciação, é a questão da música.




Pelos relatos feitos durante as festas, é elementar a observação de que eles passam a gostar muito mais desta musicalidade, passam também a observar melhor as características técnicas (mesmo que não amplamente) e falem da psicodelia da música, eles a encheram mesmo que não haja.






É interessante observar que nestas festas os sentimentos desejados e os elementos procurados na música são alcançados. Ao fim da festa, o neófito tem a sensação do fim de uma jornada, de um caminho que na grande parte dos casos ele irá refazer.




O momento final, a agregação, não possui grandes mistérios, ocorre da mesma maneira que ocorreria na volta de uma saída comum, mudando somente o horário, que normalmente é no início da noite. A diferença é o sentimento que a pessoa esta, grande parte dos entrevistados dizem que em seu retorno eles se sentiam maravilhados com a festa, tendo consumido ou não drogas. Esse sentimento positivo ocorre devido ao clima que ele conviveu durante muito tempo, seu retorno implica que aquilo é momentâneo, por isso a ansiedade de resgatar aquilo, de voltar para outra rave.




É desta maneira que o rito se finaliza. A iniciação em uma rave como se pode observar ocorre com questões emotivas e hedônicas.




Sua força se encontra no sentimento da positividade, da aceitação, da hospitalidade, da liberdade e da ausência da repressão. As sensações mais procuradas numa sociedade que oprime e recrimina. Desta maneira, o rito das raves se caracteriza como um escape á realidade da sociedade, e a iniciação a este rito é a expressão da insatisfação com o que é presenciado na sociedade, variando unicamente com os objetivos do neófito, se ele esta ali por diversão ou por outras razões além desta.




Com todos esse elementos explanados, podemos classificar o rito de iniciação de diversas maneiras. Ele é um rito de contágio, de dinastia, positivo e direito. É um rito de contágio pois exige que as pessoas se conectem de alguma maneira havendo muitos abraços e muitas demonstração de afeto, esse contato é fundamental para o neófito, e também por meio dele que os tutores farão com que o indivíduo se sinta aceito pelo meio.




É de dinastia pois não se pretende evocar nenhum espírito, ele ocorre por sua própria qualidade, de acordo com a sua estrutura, no caso em particular, pela manifestação da vida, no amor e da consciência. É positivo pois não esta vinculado a nenhum tabu, não se pretende com ele desfazer nenhum mal no qual fora acometido, ele ocorre de acordo com a vontade própria do neófito, pois ele pretende se inserir na festa.




E é direito pois possui uma eficiência imediata, é ali dentro que tudo o que se busca será encontrado e desfrutado, é o momento liminar da festa que é o mais importante.




Conclusões.




Como se pode perceber, apesar das raves representarem uma festa onde o consumo de drogas seja de certa maneira liberado e consequentemente acarretando diversos problemas sociais, o que podemos ver é que elas também são uma espécie de rito moderno que herda das culturas xamânicas e hindus seus elementos mágicos.




A principal questão tomada por esse rito é a expansão da consciência, a interação com uma realidade não comum e a difusão de sentimentos positivos, como a paz, amor, união e respeito. Este rito possui duas questões que aparentemente não poderiam se misturar, a diversão e a transcendência, formando desta maneira uma espécie de rito única onde nem mesmo os membros destas raves percebam isso, talvez por falta de conhecimento ou por não quererem se preocupar com o tema.




Assim como os elementos constitutivos das raves são híbridos, o mesmo ocorre com a cena eletrônica no Brasil, assim como os freqüentadores também são ambíguos. Isso caracteriza a rave como possuidora de diferentes pólos, sempre oscilantes entre a diversão e a transcendência. Ritual e festa, onde ambos se mesclam causando uma confusão em seus reais significados, sendo que na verdade o que se mostra é uma fusão entre os dois. Criando-se uma espécie de espiritualidade sem religião institucionalizada, sendo exercida na prática e acompanhada de uma filosofia espelhada na contracultura hippie.




Atualmente o que se pode dizer é que o movimente que há por traz das raves representa a atual contracultura do mundo, vinculando às festividades eletrônicas um significado cognoscível que representa um etilo de vida, que une humanismo, natureza e esoterismo.




Dentro deste meio híbrido nada mais natural que o neófito também o seja. O indivíduo que vai a ser iniciado neste meio representa a insatisfação com os princípios da sociedade em geral. Ele é o jovem que encontra nas raves o que ele não pode usufruir na sociedade. Para se inserir ele se espelha nos freqüentadores das festas, tendendo a se comportar como eles, pelo menos isso ocorre na relação neófitos e tutores.




Nesta festividade onde a maior parte dos freqüentadores não esta sintonizada com os reais ideais do Psy-Trance, indo às raves unicamente por diversão e para o uso de drogas desenfreado, esse neófitos se espelham neste comportamento hedônico. Conseqüentemente a freqüência deste tipo de freqüentador aumenta, se tornando a parte majoritária de membros, levando as raves para a mídia de forma negativa e aumentado a briga que existe.




Desta maneira o rito das raves não é completamente exercido próximo ás metrópoles, descaracterizando o lado espiritual das raves. Sendo assim, a iniciação nas raves pode tanto ser uma iniciação mágico-social quanto puramente social. No primeiro caso, a iniciação se daria por questões culturais e com elementos xamânicos. Já no segundo, que é o que ocorre atualmente nas raves, a iniciação é unicamente a transição que o indivíduo fará de um status à outro, no caso, de simples membro da sociedade, para uma “raver”, o que para a sociedade seria um “drogado”, mesmo que realmente não o seja.